quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Asas Negras - Cena Cortada


Todo escritor escreve umas idiotices das quais se arrepende e, se for em tempo, é limado antes de sua publicação. E comigo não é diferente.

Eu escrevo muita tralha. De todas as idiotices, tem umas que se superam. Como sou um autor independente, basta eu cortar, corrigir, maquiar e enviar novamente o arquivo para ser usado quando for solicitado impressão - simples assim.

A seguir, um pedaço, quase um capítulo inteiro, que foi podado de Asas Negras. Escrevi essa parte num momento de tédio e falta de inspiração. E como Falta de Planejamento é o meu nome do meio, coisas assim sempre acontecem...

Cap. 12 – Omissões.

O relógio já marcava mais de onze horas da noite e as ruas estavam frias e silenciosas. As poucas almas vivas que circulavam naquela área totalmente residencial eram cães e gatos abandonados, pequenos roedores e o guarda-noturno que andava na bicicleta fazendo a sua ronda. Apenas o vento roçando as copas das árvores e arbustos e o apito cada vez mais distante do vigia eram ouvidos. Poucos eram os que andavam pelas ruas àquela hora, apenas um ou outro que chegava tarde do trabalho ou da escola.

Enzo estava na cadeira de rodízios, de frente ao computador em seu quarto sempre bagunçado. Distraia-se na internet e no Messenger, pesquisando coisas de seu interesse e perdendo tempo em conversas inúteis. Ele era um insone, tal qual o seu amigo Wojtyla, e dormia apenas de duas a três horas por dia. Porém, para sua mãe, esse detalhe não a interessava.

— Quero esse computador desligado e você debaixo das cobertas em dois minutos! – Intimou a mulher, que havia aberto a porta do quarto do filho num rompante, apontando dele para a cama. O tom decisivo dela não dava margens para tentativas de argumentação.

O garoto apenas olhou de esguelha, iluminado pela luz do monitor e as imagens refletidas nas lentes de seus óculos retangulares. Ele, desde muito, já havia aprendido que era total perda de tempo qualquer tipo de argumentação ou tentativas de acordos com o pai e a mãe; aprendeu que era muito mais fácil, simples e rápido simplesmente acatar as ordens – e burlá-las em seguida sem que eles soubessem.

Desligou a máquina, deixando a mãe satisfeita o suficiente para se retirar de seu quarto, deixando-o novamente sozinho. Como estava mesmo entediado com a internet, sequer reclamou. Empurrou a cadeira com desdenho e pegou um gibi qualquer para ler e matar o tempo até o sono vir. Ligou a luminária e quando ia jogando-se na cama, Enzo tem um pressentimento que o faz estacar e se aprumar novamente, olhando para fora do seu quarto através da janela de vidro.

— Não precisarei esperar até amanhã de manhã para saber das novidades? – Riu.

Destrancou a janela de vidro, que estava fechada apenas para impedir a entrada do vento frio da noite e empoleirou-se no parapeito. A sua casa era um duplex com o telhado em V invertido e uma chaminé para expelir a fumaça da lareira que raramente era acesa, permanecendo na arquitetura da casa apenas para fazer charme e compor o estilo colonial europeu. Os três quartos da casa ficavam no segundo andar, sendo que havia um pequeno andar acima, que era o soto, usado para guardar as tralhas velhas da família. Da janela do quarto de Enzo até o chão dava, pelo menos, uns quatro metros de altura que não eram suficientes para matar, mas machucava bastante caso se caísse, porém, isso não intimidava nem o pouco o garoto.

A janela do quarto era composta de quatro folhas: duas de vidro puro que se abriam para dentro e duas de madeira colonial, que se abriam para fora. Com a agilidade e a leveza de um gato, Enzo ergueu-se para cima da janela de madeira, parando sobre ela nas pontas dos pés, visto que sua espessura era de apenas cinco centímetros e, antes que as dobradiças rangessem em protesto ao seu peso, o garoto deu um salto leve e alto o suficiente para agarrar as pontas das telhas que se faziam de marquise, ganhando impulsão para chegar ao telhado. Exatamente como um gato, Enzo foi rápido e sutil, fazendo o mínimo de barulho possível, praticamente imperceptível, e ágil o suficiente para não sobrecarregar nem a janela nem as frágeis telhas de olaria com seu peso. E, apesar do telhado ser em declive, o garoto subiu até o topo sem nenhuma dificuldade, pisando levemente nas pontas dos pés sobre os encaixes das telhas. Quando atingiu o alto do telhado, parou empertigado sobre a linha horizontal de telhas arredondadas, mantendo-se totalmente equilibrado.

A noite estava fria e o vento um pouco forte, mas isso fazia com que o céu ficasse parcialmente limpo, com apenas alguns rasgos de nuvens. A lua em seu quarto crescente deixava uma claridade fantasmagórica e cores surreais no mundo e nas coisas, o céu num azul quase negro e as estrelas mais cintilantes.

— Existe um meio muito mais fácil de chegar aqui, Enzo... anda poupando energia para quê, afinal?

— Será que já passou por sua cabeça de que eu gosto de brincar de malabarismo?

— Imagina... passar pela minha cabeça de que você gosta de brincar...

Wojtyla estava sentado na borda da chaminé quadrada, feita em tijolo maciço. Os pés estavam recostados nos tijolos e o garoto ficava curvado sobre si mesmo, com os braços descansando sobre as pernas. Olhava placidamente o horizonte arborizado e de telhados coloniais. Enzo habitava a área mais nobre da periferia do centro da cidade, fazendo divisas com os bairros mais pobres do subúrbio – entre eles o bairro onde Yashalom mora.

Enzo, que não estava muito a fim de ficar parado em pé, se ajeita sobre as telhas, sentando-se à vontade com as pernas esticadas e se apoiando nos braços que ficaram para trás das costas. Desde que havia saído do colégio ao meio dia, ou melhor, desde que fora expulso pelo amigo na biblioteca por ele ter sido grosseiro com Yashalom, não teve mais a oportunidade de conversar com ele e, como bem se lembrava, Wojtyla tinha algo a dizer sobre o Mundo dos Sonhos e, certamente, teria a dizer, também, sobre a sua tutelada, depois de ter sido rechaçada (propositalmente) por Enzo, mas ele esperaria para ouvir, afinal, não estava muito interessado em saber. Às vezes, até mesmo para ele, esse mundo se tornava muito patético e tedioso.

— E só para constar... - Quis Enzo espetar o amigo. — Por que não escolheu um lugar menos idiota para aparecer ao invés do telhado da minha casa?

Wojtyla levantou-se da chaminé e alongou-se, andando felino sobre as telhas que formavam a emenda entre os dois lados do telhado, pisando tão leve e macio que nem o atrito de seus pés descalços com a cerâmica era ouvido. Parou ao lado do amigo, agachando-se feito um pássaro empoleirado.

— Porque isso me trás uma idiota ilusão de liberdade; uma idiota ilusão de ir contra as circunstâncias e o convencional. E eu sei o quanto você gosta dessas coisas idiotas. Ou preferia se encontrar comigo numa pracinha? Seria mais romântico, não?
— Cara! Deixa as piadas comigo! Você é péssimo nisso! Perguntei, bem, porque acho que, realmente, estamos ficando convencionais demais! Poderíamos passar, pelo menos, algumas horas em Na h-Eileanan Siar.... gosto de lá, lembra a minha casa...

— E Tatras, a minha... mas não podemos nos afastar, você sabe muito bem disso. Porém... nada impede que você vá...

— Impede, sim. Não sou um irresponsável como você gosta de imaginar, milico!

— Bardo! Você nunca perderá esses maus costumes de me chamar por tais nomes?!

— O dia que eu abandonar em definitivo meus antigos costumes estarei admitindo, também em definitivo, a minha derrota! Ainda mantenho minhas esperanças. Não sou tão resignado quanto pensa...

Wojtyla riu com cinismo, sentando-se de vez sobre a telha: — Seu povo é estranho. Até hoje me surpreendo com você, Enzo! É imprevisível e age de forma contraditória algumas vezes, o que faz de você uma pessoa inconfiável...

— Penso se o que fala é para eu me orgulhar ou tomar como ofensa, general... mas, em nome de nossa longa e antiga amizade, vou tomar isso como um elogio. Meu povo tem sangue quente, dado às festas e comemorações, mas somos muito honrados e leais e uma vez que damos nossa palavra, somente a quebraremos se formos atraiçoados... E você sabe muito bem disso!

— Óbvio que sei, senão jamais teria formado uma aliança com as Terras Altas. Mas, enfim, chega de saudosismo! Precisamos pensar o presente. Se somente eu estiver sendo afrontado, não há problema...

Enzo olha de soslaio para Wojtyla, que permanece centrado no horizonte arborizado. Eles se conheciam há muitos anos, eram grandes amigos apesar das diferenças culturais e, sabia que, naquele momento, milhares de coisas estavam passando pela cabeça do polaco.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Asas Negras nas Bibliotecas

Se tenho um sonho (e não simplesmente meta de necessidade a ser alcançada) é que os meus livros sejam lidos. E outro sonho é vê-los em bibliotecas, gratuitamente, para quem quiser pegar e ler.

Mas, como todos os sonhos, esses também são difíceis. O trabalho, então, que me propus a fazer, é de formiguinha, mas que espero conseguir realizar um montante!

Desde 2012 venho fazendo doações de alguns livros meus para algumas bibliotecas. Até agora foram muito poucos para poucas instituições, mas espero conseguir muito mais ao longo do tempo. A minha maior dificuldade nisso é a financeira, pois os livros impressos pelo Clube de Autores não saem baratos nem para os autores! E a falta de verba me impede de mandar imprimir em grande quantidade para poder doar às bibliotecas.

Portanto, o passo é de formiga, mas garanto que a vontade é de elefante!

Por isso, já se pode encontrar para empréstimo alguns livros, inclusive o Asas Negras, que já está disponível em duas bibliotecas :)

Se você mora perto ou tem acesso fácil a uma dessas bibliotecas, convido para emprestar e conhecer o livro, o meu "Mangá Literário"... e faça uma autora feliz :D

Sei que ainda é muito pouco, mas garanto que, ao longo do tempo, mais bibliotecas serão presenteadas com exemplares de Asas Negras (e os demais livros), para que fique fácil o acesso a leitura deles! Conforme eu for fazendo as doações, virei aqui para divulgá-las.

E se, por acaso, você ler algum deles... venha comentar as suas impressões! Isso é algo que deixa um autor muito feliz \o/

Bibliotecas:

Escola Municipal Amador Bueno
Praça DR RAPHAEL DE SOUZA, 270 - CENTRO
CEP: 18950000
IPAUSSU, São Paulo Email: AMADORBUENO@CEDNET.COM.BR
Telefone: (14) 3344-1518
(Somente alunos, funcionários e professores da escola)

Popular Cruz e Souza
(Biblioteca de Bangu)
R. Silva Cardoso , 349 , Bangu, Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 3332-0675

 


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