sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Asas Negras - Cap 1 Sonhos - Parte 2


Yashalom saiu correndo do banheiro, largando o roupão e a toalha de qualquer jeito sobre a cama. Em apenas alguns minutos, veste o uniforme escolar, resmungando enquanto olhava para o relógio sobre o criado-mudo. 

" Droga-droga-droga! Não acredito que se passou meia hora! Isso é impossível! Não fiquei nem dez minutos no banheiro, tenho certeza! "

Do quarto, ainda terminando de enxugar e pentear às pressas os longos cabelos negros, Yashalom vai à cozinha procurar algo para comer que já estivesse pronto, pois não havia mais tempo sequer para preparar uma xícara de café ou tostar os pães. 

" De novo atrasada! Assim nunca tomarei um café da manhã decente! "

Com o uniforme descompassado, a mochila jogada e quase caindo do ombro e dois cream-crackers presos à boca, Yashalom desce apressada a escadaria da casa, quase aos tropeços. 

E é aos tropeços que chega ao ponto de ônibus, que fica a menos de cem metros da sua residência. A rua estreita, de pouco movimento, ladeada por casas coloniais e muito verde dos pequenos jardins, canteiros e árvores, denunciava o ar bucólico do bairro sulista de sugestivo nome Bosque. 

" O ônibus já passou! Tomara que o próximo não demore tanto! "

E foi choramingando que Yashalom esperou mais longos dez minutos até o próximo ônibus surgir. Não era o que passava em frente à sua escola, mas o que a deixaria em um quarteirão mais distante. 

Quinze minutos mais tarde, espavorida, salta do coletivo. Correndo, a garota vence a distância de um quarteirão - daqueles grandes! - até o portão de entrada da escola que, por sorte, ainda estava aberto. O pátio, já vazio de alunos, demonstrava o quanto ela estava atrasada. Aproveitando a sorte que teve ao encontrar o portão aberto, entra pé-ante-pé, rezando para que ninguém a flagrasse, já quase alcançando o corredor principal. 

" Outra vez perdi o primeiro tempo de aula! Assim não dá! Se o Coordenador Rubens me pegar novamente... "

" Srta. Sant’Anna! Eu já lhe adverti sobre esses seus atrasos! "

Yashalom estacou, alarmada. A essa altura do campeonato, não sabia se a sua imaginação fértil estava falando alto demais ou se havia sido pega novamente pelo Prof. Rubens! Vacilante, ela se vira, esperando tolamente de que se tratasse apenas de mais um delírio seu. Porém, suas esperanças se derretem juntamente com suas entranhas. Tentou, ao menos, gaguejar uma desculpa qualquer. 

" Eeeh, eeu, beeem... "

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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Asas Negras - Cap 1 Sonhos - Parte 1


São seis horas de uma manhã ensolarada, quando o relógio de cabeceira toca, despertando Yashalom com um som melodioso. Recebeu as primeiras impressões do dia através dos raios finos de sol que perpassavam as frestas da cortina de bambu. 

Apesar de acordada, a menina ainda permanecia entre o Mundo dos Sonhos e o Mundo Físico, vendo imagens etéreas passando embaçadas diante de seus olhos, até desvanecerem no ar. Mesmo zonza, se levanta e espreguiça, fazendo algumas articulações estalarem com esse gesto. Sua silhueta é contornada pelos filetes de sol que invadem o quarto, na querença de romper com a penumbra, insistindo que a noite já havia passado. Mecanicamente, toma o caminho para o banheiro. Só acordaria, de fato, após o banho de ducha forte. 

Enquanto se enxuga diante do espelho sobre a pia, embaçado pelo vapor do chuveiro, Yashalom foca em seus próprios olhos refletidos, de vários matizes azuis, com seu rosto parcialmente encoberto pela toalha branca. 

Como se mergulhasse em um transe, ela toca sua própria imagem refletida: dedos com dedos, olhos dentro dos olhos. Por alguns instantes, a imagem do espelho ondula como fosse a água de um lago, e se modifica. 

Diante do espelho está uma criança de quatro anos, admirando-se. Às suas costas surge uma mulher esguia, de longos cabelos negros, que a trata com doçura. Feliz ao ver a mulher através do espelho e ouvir sua voz mansa, a criança sorri e corre para os braços vigorosos, que a erguem ao colo, deixando revelar algo que poderia ser interpretado como uma deformidade: um par de pequenas asas de luzentes penas negras. 

A visão desta anomalia faz Yashalom despertar de seu devaneio com um impacto, com a sensação de ter caído do alto de um muro. Tal sensação já lhe era uma velha conhecida, uma pequena reminiscência do desdobramento astral que ela sequer sabia existir, e menos ainda de que ela era naturalmente capaz de se projetar. Acabou por ignorar a visão e o baque subsequente, esquecendo do sonho e se alardeando com algo muito mais urgente. 

" Aah! Mas que droga! A hora! "

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quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Asas Negras - Prólogo - Parte 7


" É tudo muito difícil, não sou eu que estou tornando as coisas assim! Não posso abandonar a minha terra e o meu povo quando eles mais precisam do poder que eu possuo! Passei dias pensando em tudo isso, em nós, e lhe garanto que não foi nada fácil tomar essa decisão, Ellen! Eu quero que você viva, independente se estará ao meu lado ou não! Quero você viva e bem! Mesmo que em outro mundo, até mesmo com outro homem... desde que esteja viva e segura! "

" Zach! "

" Por favor, Ellen! Você não sobreviverá aqui, mesmo que ficasse com o meu pai e minha irmã! Eles mal poderão garantir a própria sobrevivência e eu mesmo não posso dar garantias de que não perecerei nesta guerra! "

 Ah, que ótimo então, Sr. Zach! Além de me enviar contra minha vontade ao um mundo que não quero mais pertencer, me privar de tê-lo ao meu lado, ainda vou para lá na incerteza de que você sobreviverá! Isso é crueldade, seu demônio arrogante! 

O rapaz sorriu um sorriso desprovido de alegria. 

" A crueldade faz parte da nossa natureza, minha adorável humana... " – O falso sorriso, por fim, desvaneceu, cedendo lugar ao desalento. " É necessário que eu faça isso, Ellen... não poderei lutar como devo se eu tiver você aqui para me preocupar, e assim não serei capaz de defender nem a você e nem a mim mesmo. Por favor, peço apenas que compreenda! "

" Eu compreendo... " – Mariellen suspirou, cansada. " Deus sabe o quanto entendo a nossa situação e sabe que eu já esperava por isso, quando você foi convocado para essa maldita guerra! Que meu coração, de alguma forma, havia pressentido de que seríamos afastados um do outro por muito tempo! Por isso pedi a Deus que me desse algo seu... que me ligasse a você para sempre... e Ele me deu! "

Mariellen aproximou-se de Zach, envolvendo as mãos delicadas no rosto dele, olhando-o fixamente dentro dos olhos, já não mais estranhando as pupilas fendidas como as de um gato. 

" Estou esperando um filho teu, Zach... Eu estou grávida! "

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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Asas Negras - Prólogo - Parte 6

Por um instante, o coração de Mariellen gelou, mas logo uma luz de esperança brilhou e o esboço de um sorriso se formou em seu rosto. 

" Voltaremos para a Terra? Ficaremos por lá até a guerra acabar, é isso? E por que não trouxemos Zakiyah e o Sr. Ailã? Eles ficariam mais seguros conosco! "

O Órix começou a galgar os rochedos que levariam à gruta escondida no pequeno outeiro. Mariellen ficou na expectativa de ter as suas respostas, mas a luz de esperança que havia acendido se apagava, pois, de alguma forma, pressentia que Zach não estaria com ela. Ele, por sua vez, adiava o máximo que podia em informar de sua decisão. 

O animal parou na laje, que daria entrada à gruta, e Zach apeou, descendo a esposa em seguida. Mariellen estava rígida, os olhos marejados e a respiração opressa, mas manteve-se em silêncio, aguardando para que o esposo se pronunciasse, embora ele estivesse evitando isso. Para ganhar mais algum tempo, o rapaz despiu as braçadeiras, a couraça e a cota de malha que usava por baixo, ficando apenas com a túnica em couro macio que protegia a sua pele do atrito e calor dos metais da armadura. Voltou-se para a esposa, envolvendo as mãos no rosto dela e absorvendo os traços em sua memória, até que a urgência de senti-la junto a ele fosse mais forte. Envolveu-a em seus braços e a beijou como fosse o último ato de sua vida. 

Abraçou-a ainda mais firme e mergulhou o rosto nos bastos cachos dourados que pendiam soltos, tentando absorver toda a Essência dela, pois era o único tesouro que queria levar deste mundo caso ele morresse na batalha. 

" Perdoe-me, Ellen..." – Sussurrou ao ouvido dela. Mariellen reprimiu um soluço, mas sua voz ainda assim saiu embargada. 

" Eu não irei para a Terra sem você, Zach! Não ficarei lá enquanto você estará aqui em meio a uma guerra! Se você ficar, ficarei também e correrei os mesmos riscos que você! "

" Não! " – Zach bradou, se afastando de Mariellen. Ainda a segurava pelos braços, encarando-a nos olhos. " Você não correrá risco nenhum, Ellen! Você irá para a Terra e voltará para a casa dos seus pais! Você não pode ficar aqui, não sobreviverá! E eu não poderei protegê-la! "

" Por que está tornando tudo difícil?! Por que simplesmente não larga tudo isso e vem comigo? Eu não vou ficar sem você, Zach! Não posso ficar! "

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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Asas Negras - Prólogo - Parte 5

Zach baixou os lábios até os de Mariellen, beijando-a e, desta forma, transmitindo sua Energia Vital. Depois de instantes, o sangue começou a circular novamente pelo rosto da moça, devolvendo-lhe o rosado dos lábios e das bochechas. Ela abriu os olhos azuis celestes, que refletiram o clarão vermelho-alaranjado do céu do poente. 

" Perdoe-me, Ellen! Não queria amedrontá-la! " – Zach sussurrou, agora muito mais calmo e embevecido pelos azuis celestiais daqueles olhos tão brilhantes. 

Mariellen ajeitou-se sobre a sela, respirando o ar em golfadas e reprimindo uma náusea. Voltou-se para Zach quando sentiu que não havia mais riscos de pôr para fora o lanche da tarde. Tocou no rosto dele com dedos frios e vacilantes. 

" Não imaginas como senti a tua falta! E como eu tive medo por ti! E quando te vi, pensei que tudo ficaria bem de novo e que iríamos para a nossa casa! Tenho algo muito importante para te contar e queria fazer isso em nosso lar! "

Zach fechou os olhos com pesar, sentindo finalmente a dor e a angústia daquilo que ele pretendia fazer. Beijou com leveza a fronte da esposa, puxando as rédeas do Órix e voltando à corrida, porém desta vez mais leve, quase apenas passadas largas. 

A moça não estava gostando do rumo que eles tomavam. Conhecia aquelas paragens, embora tivesse passado por ali apenas algumas poucas vezes e a vegetação estivesse sempre em mutação. Definitivamente, não era para casa que eles estavam indo, afinal esta ficava na direção oposta, à raiz das montanhas e próxima às cachoeiras. E por que Zach permitiria que o pai e a irmã partissem sem ela? Ela era assim tão inútil que os atrapalharia?! 

" Zach! Por favor! Para onde estamos indo?! "

Zach não respondeu de imediato, embora não pudesse adiar isso por mais tempo. Respirou fundo. Não desviou o olhar do caminho em que iam para responder à moça. 

" Estamos indo à gruta... "
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domingo, 25 de setembro de 2016

Asas Negras - Prólogo - Parte 4

Do lado de fora, parada e temerosa, estava Mariellen, a moça humana que Zach conhecera há três anos, quando conseguiu forjar um portal interdimensional que ligou o Mundo Místico à Terra. Haviam se casado há sete meses e, desde então, ela vivia ali com sua nova família. Porém, a Guerra das Quatro Terras fora deflagrada e Zach, sendo um Oficial do Exército do Sul, foi convocado. Não se viam há quase três meses. 

As lágrimas e o medo de Mariellen não detiveram o jovem Daemon, quando se voltou para ela, agarrando-a pelo braço e praticamente a arrastando até o antílope que mastigava com voracidade o belo canteiro de flores de Zakiyah. A moça humana, completamente inabilitada para aquele mundo e não compreendendo as atitudes daquele homem que tanto amava, gemeu em protesto, mas não foi dispensada nenhuma atenção a mais por isso. Zach puxou a montaria pela rédea e, com extrema facilidade, ergueu a esposa até a sela, montando em seguida. 

" Zach... por favor! " – Suplicou, sem sucesso. 

O Órix desceu embalado a ladeira, passando com destreza e fluidez pela vegetação e rochas, como se estivesse completamente recuperado da louca corrida que empreendera, como se não carregasse alguns quilos a mais em suas costas. Mariellen apertou com força as pálpebras, não suportando a vertigem que a velocidade da montaria lhe impingia, e ainda com mais medo de se desequilibrar e cair, embora estivesse bem protegida pelos braços e corpo de Zach. Queria segurar-se em algo, mas temia encostar as mãos naquele animal tão estranho para ela, e as braçadeiras e peitoril de metal que Zach usava, pareciam a repelir! 

Há meses sem estar junto ao esposo, tendo uma saudade quase a sufocá-la, e ela sequer podia tocá-lo quando finalmente ele voltava para casa! Perdeu os sentidos por instantes, por causa da vertigem, e teria caído da montaria se Zach não a tivesse amparado, sobraçando-a pela cintura. Foi, somente assim, que ele fez com que o Órix parasse. Preocupado, deitou a moça em seu braço, vendo o rosto dela ainda mais pálido do que de costume. Os lábios, naturalmente avermelhados, estavam brancos. A fisionomia de Zach se abrandou e, embora seus traços voltassem à serenidade costumeira, a tatuagem continuava carmesim e as pupilas fendidas. 

" Ellen! Por Olorum! Acorde! "

Trêmulo, passou a ponta dos dedos desnudos sobre o rosto de sua amada, sentindo a pele dela muito fria. Somente então se deu conta do quão monstruoso devia estar aos olhos dela, que ainda não conhecia todas as particularidades daquele mundo e de seus habitantes. E ele, miseravelmente, não havia prevenido-a para essa sua face demoníaca. Até então, Mariellen somente conheceu um homem diferente, de fisionomia exótica que mais lembrava um elfo das mitologias nórdicas de seu próprio mundo.


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sábado, 24 de setembro de 2016

Asas Negras - Prólogo - Parte 3

" As tropas do Norte já estão em nossas fronteiras e eles são muito numerosos, muito bem armados e possuem poderosos soldados psíquicos e feiticeiros do Grande Deserto! E o Guardião também está aqui! Preparem-se para sair agora! Fujam para as montanhas! É provável que nossas tropas não consigam detê-los antes que eles cheguem até aqui! "

" Meu Pai Olorum! Isso não pode ser verdade! Aquele... bastardo... maldito... que levou a minha primogênita... levou à morte! – Ailã balbuciou de forma desconexa, com o ódio crescendo no peito. "

O rapaz se aproximou, pegando grosseiramente o pai e a irmã caçula pelos braços, obrigando-os a entrar na casa. 

" Não temos tempo para que vocês acreditem ou não, pai! Se Imăm está aqui à frente de seu exército, é porque ele está convicto de que desta vez conseguirá invadir e dominar o nosso país! E eles não serão piedosos com velhos ou mulheres! Não quero que corram riscos desnecessários se podem ainda fugir e se proteger! "

Dentro da casa, Zach dá ordens imperiais ao pai e à irmã. 

" Providenciem o mínimo necessário possível! Agasalho para o corpo e mantas para dormitarem na selva! Zakiyah, prepare duas sacolas, uma com os agasalhos e uma ou duas panelas e pedras de fogo, outra com alguns alimentos, água e remédios! O pai saberá como sobreviver na selva, mas será mais fácil para vocês se tiverem um mínimo de algo que facilite as suas vidas! Vistam-se com os trajes de couro e as bota de cano longo. Deverão sair para a mata antes que o sol se ponha totalmente e não deverão descansar antes de chegar ao alto da serra! "

" Mas, irmão! A mata é muito perigosa à noite! Os animais noturnos... "

" Se esperar pelo amanhecer será tarde demais, Zakiyah! Nenhum animal das nossas matas é mais perigoso que um Soldado do Frio! Faça o que estou ordenando e agora! "

Zakiyah engoliu o pranto e sua resposta. Jamais vira o irmão em tal estado alterado. Jamais falou naquele tom ou fora grosseiro com ela. Mas sabia que ele não agia por mal e resolveu obedecê-lo sem mais questionamentos, como seu pai fazia.

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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Asas Negras - Prólogo - Parte 2

Zach era um Daemon alto, esguio, de corpo atlético. Como seus ancestrais, possuía a pele morena, os cabelos negros, lisos e de fios grossos, e os olhos oblíquos de íris vermelhas. Envergava a armadura do exército, que cobria quase todo o seu corpo, e se tornava ainda mais imponente sobre o enorme antílope, igualmente forte, lânguido e armado. O animal empinou quando Zach puxou suas rédeas com brutalidade, afundando as patas dianteiras no solo arenoso, bufando em protesto e cansaço. Não foi sem alardes que sua família o recebeu, ao sair apressada de dentro da casa, quando ouviu o barulho seco dos cascos do antílope e o tilintar dos metais das armaduras. Não reconheceram o Daemon de imediato, pensado em se tratar de outro oficial qualquer do Exército do Sul. Ailã, o patriarca, impediu a filha de se adiantar ao visitante ainda mais. 

Apesar de estar alquebrado pela doença, o velho conseguia manter a postura altiva e ameaçadora. Saiu à frente da filha e da nora, que mantinha a menina segura num abraço, com o arco retesado e uma flecha apontando para o rosto do soldado, uma das poucas partes que estava desprotegida. 

" Pai! Sou eu! – Zach gritou com a voz falha. Havia horas que não pronunciava uma única palavra e todo o vento que levou na cara secou sua garganta, pois nem para se hidratar ele havia interrompido a corrida. "

O velho Daemon abaixou o arco, ainda retesado em suas mãos calejadas, olhando incrédulo para o filho, sentindo a alegria crescendo em seu peito maltratado. Mariellen soltou Zakiyah involuntariamente, e a garota correu sorridente para junto do pai, por ter o irmão de volta em casa. Zach apeou, permitindo que o Órix se recuperasse da jornada dura que empreendeu. 

" Meu filho! Graças a Olorum! A guerra... acabou?! "

Zach retirou o elmo, deixando à mostra sua fisionomia alterada, quase bárbara. A tatuagem tribal que tinha em sua testa estava escarlate, denunciando seu estado de fúria e terror. As pupilas estavam fechadas em fendas verticais, denunciando que sua Força Psíquica estava completamente despertada e pronta para ser usada a qualquer momento e em toda a sua potência. O rosto do velho pai empalideceu e o sorriso da irmã desmanchou, mas foi Mariellen quem mais se aterrorizou com aquela expressão que jamais vira no rosto de seu amado. A moça estancou a meio caminho de abraçá-lo. Zach percebeu, sentiu em seu íntimo, o terror de sua esposa, mas não desviou seu olhar cruel do pai, que já compreendera a tudo sem que uma palavra fosse pronunciada.


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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Asas Negras - Prólogo - Parte 1

Ilustração de Heise Jinyao

PRÓLOGO - PARTE 1

Ele não devia ter feito isso, mas não lhe deram escolha. Poderia ser tomado como desertor, mesmo assim enfrentaria o inferno, se necessário, para salvar a vida de sua família. Ele era um Oficial de Elite, privilégio concedido por conta de sua grande Força Psíquica, capaz de manipular os elementos e energias apenas com o poder de sua vontade. Por isso Zach era muito necessário e requisitado, afinal eram poucos os que conseguiam desenvolver tal poder mental. 
 
E esse foi o poder usado contra o Comandante, um Daemon valoroso e de grande Força Física – porém, não páreo para Zach, quando resolve manipular a mente, ato extremo e antiético. O Oficial fez com que o seu Comandante ordenasse que ele partisse imediatamente para o interior das Terras do Sul, como Mensageiro de Guerra, alertando as aldeias sobre a iminente invasão pelo exército das Terras do Norte. 

Enretanto, o objetivo de Zach não era assim tão nobre. Não era com esse intento que partia para o interior, para servir de mensageiro. Sequer era necessário isso, pois outros soldados já foram enviados para essa missão. 

Todo o País do Verão estava em alerta e, além disso, se podia contar com as mensagens transmitidas através de Magia, pois sempre havia algum Pajé, algum feiticeiro em alguma aldeia que poderia transmitir o alerta para as aldeias vizinhas. Não, o que ele tencionava era salvar a vida de sua família, colocá-la pessoalmente em segurança: o pai idoso e a irmã que lhe restava, ainda adolescente e sem nenhuma Força desenvolvida. Mas o seu maior medo era por Mariellen, sua jovem esposa. Ela não seria capaz de acompanhar a fuga, não seria capaz de sobreviver às adversidades que certamente a fuga imporia a todos. Mesmo o seu pai idoso e adoentado ainda era mais apto a sobreviver do que ela, quase duzentos anos mais jovem... Mariellen era humana e pertencia a Terra. 

O imponente Órix, o antílope usado como montaria pelo exército das Terras do Sul – por conta de sua força, agilidade e velocidade – corria a saltos largos, quase mal tocando o solo com seus cascos fortes. Deslizava sobre o relvado e áreas rochosas como se não carregasse a armadura para proteção de seu próprio corpo e um Daemon igualmente armado em suas costas. A paisagem passava como fosse apenas borrões lânguidos de tinta colorida, e o sol escaldante do Verão parecia dar-lhe ainda mais energia. 

As horas se passavam e o Sol começava a se pôr atrás da serra, lançando clarões vermelhos e dourados na atmosfera, fazendo com que o reflexo na armadura belamente ornada de Zach parecesse em brasa viva. E assim ele  próprio e sua montaria se sentiam, após horas correndo sob o calor intenso. 

Com alívio, avistou os primeiros telhados de taipa ao subir a ladeira que levava à aldeia onde sua família morava, aos pés de uma serra forrada pela floresta tropical. Sorriu em antecipação, apenas por saber que veria novamente os rostos que tanto amava, e veria os olhos azuis que tanta paz lhe traziam, embora, pressentisse, fosse a última vez que os veria... 

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Os capítulos seguirão por postagem, para facilitar a leitura. Se quiser adquirir o Romance em formato de livro, poderá fazê-lo através destes links:

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Asas Negras em Texto Integral no Blog


Há alguns meses atrás, havia publicado aqui no blog sobre a minha intenção de publicar todo o texto de Hybrida - Asas Negras, disponibilizando gratuitamente para leitura online. Claro que choveu interessados, como chove interessados pelo livro impresso no Clube de Autores ou pelo ebook no Amazon.

Portanto, atendendo aos clamores de milhares de fãs, a partir de hoje teremos Asas Negras completo aqui no blog. Levará uma centena de anos, pois publicarei em capítulos pequenos, possibilitando uma leitura mais fácil e agradável. É claro que, se você gostar e não quiser esperar até 2116 para ler o final da história, sempre poderá encomendar o seu exemplar em um dos dois sites que mencionei acima.

No mais, espero que goste da leitura e da história. E se gostar muito, pedimos encarecidamente para compartilhar com seus amigos por aí: sempre tem alguém que gosta desse tipo de texto.

Agradeço demais o seu prestígio!

Muito obrigada!
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